April 24, 2017

Workshop sobre agricultura moderna na China.


Todo ano acontecem esses workshops subsidiados pelo governo chinês para países emergentes. Não é só sobre agricultura não. Tem uma lista com vários assuntos. Vou publicar aqui de barbada pra quem tiver interesse, a lista completa dos cursos que irão acontecer esse ano. A inscrição é até Junho. A maioria é ligado a agricultura.

Já fiz ano passado o treinamento de produção agrícola e tecnologia em produção de sementes, caso alguém queira saber mais sobre esse curso, pode dar uma lida aqui ou dar uma olhada no restante do blog. Tudo que tiver relacionado a China no blog foram informações que aprendi lá.

Os únicos requisitos pra esses workshops são:

1. Ter um diploma de bacharel ou de ensino equivalente ao tema do workshop, ser um professor ou pesquisador, técnico ou gestor em empresa ou setor público e que trabalhe na área relacionada.
2. Ter um mínimo de 2 anos de experiência de trabalho.
3. Ter menos de 50 anos de idade.
4. Ser capaz de trocar informações em inglês.
5. Esteja em boa saúde.
6. Passaporte válido

Após aprovado, o candidato receberá uma carta do governo chinês para então solicitar o visto de entrada no país.

Ah, uma coisa muito importante, a passagem não está inclusa nessa parada, portanto, corre pro diretor da facul, na associação dos produtores, pro teu orientador… pra tentar conseguir um patrocínio pois a passagem é meio salgada. O restante é tudo incluso, traslados pro aeroporto, acomodação, alimentação, visitas técnicas, e ainda ganha um cash $$ pra despesas extras.

Esse é o link com alguns cursos oferecidos.

http://www.cistc.gov.cn/Training/English/details.asp?column=951&id=90538

E esse pra inscrição https://168.160.11.33/student_login.aspx

April 13, 2017

DILÚVIO, AS TRÊS GARGANTAS E O RIO YANGTSE


Cidade de Wuhan ao fundo. A metrópole é rodeada de lagos
Os chineses alegam que nunca tiveram nenhum desastre no porte que foi o acidente nuclear em Fukushima no Japão, e esse é um dos motivos que optaram por continuar queimando carvão como fonte de energia elétrica. Já que as duas maiores hidroelétricas, mesmo com alta capacidade, têm também função de conter os alagamentos, muito comuns nas épocas de chuva na China.
Visitamos alguns vilarejos ao longo do Rio Yangtze e a famosa hidroelétrica das 3 gargantas.
Também pude presenciar o quão problemático são as enchentes naquele país. Durante três dias, Wuhan, uma a cidade de 10 milhões de habitantes, praticamente parou, quando muito de seus lagos transbordaram. 


SUBINDO O RIO.

Durante duas horas navegamos pelo Rio Yangtze em um barco com capacidade para 300 pessoas, a maioria dos passageiros iam ficando nas cidades onde o barco atracava para então chegarmos na represa. Formamos um grupo com os participantes do workshop para visitar, durante um dia inteiro, as instalações da hidroelétrica. 

Rio Yangtze
Junto com a construção da barragem, foram reformadas e reconstruídas novas cidades com todo recurso necessário para realocar os moradores que foram atingidos pelo aumento do nível do rio. O governo ofereceu duas opções de indenização. Cerca de 350 mil pessoas, a maioria eram produtores rurais. Receberam indenizações das quais contemplavam além da área, recursos financeiros para nova moradia e insumos agrícolas no primeiro ano de produção. A outra opção para os que não aceitaram sair da proximidade das áreas alagadas, eram incentivados a trabalharem na indústria de turismo que se criou para movimentar a economia local, que hoje atrai diariamente centenas de pessoas a navegarem ao longo do rio e manter viva a cultura das milenares tribos que viviam nas margens do Yangtze além de outros fatores históricos. Durante a invasão Japonesa na segunda guerra mundial, os nipônicos penetraram quase 1.000 km a dentro, bombardeando cidades chinesas ao longo do rio, até serem esmagados pelo exército vermelho.  

A HIDROELÉTRICA

Eclusas da Hidroelétrica "3 Gargantas"
Antes da construção da represa, diziam que o problema das enchentes iria terminar, já que a represa seguraria toda a água que descia e alagava (e ainda alaga) a maioria das grandes cidades, muitas das quais ficam abaixo do nível ao longo do rio. Indústrias teriam mais capacidade de produção pela hidroelétrica, o rio seria navegável por modal hidroviário, com maior calagem, e fomentaria rotas turísticas. Pelo que percebi, a única coisa que não mudou foram as enchentes. 

Com 32 geradores, produzindo um total de de 22 gigawatts (GW), a Tres Gargantas ainda é a maior em produção de energia. No Brasil a hidroelétrica de Itaipu produz um total de 14 GW. Para se ter uma idéia, a geração de energia esta diretamente relacionada com o aumento de produtividade sendo que ainda precisaríamos de cerca de 1GW de potência para ser gerado anualmente e conseguir manter um crescimento de 5% ao ano no PIB, segundo o pesquisador Molion.

Vou dar um exemplo bem prático. Hoje no Brasil, Rio Grande do Sul, Ijui, especificadamente, a cooperativa de energia Ceriluz não tem nem oferta de energia suficiente pra suprir a demanda de novos empreendimentos industriais de médio porte. Como pode um país crescer e se desenvolver dessa forma?

A hidroelétrica significa muito e é um orgulho para os chineses. Dentro das Três Gargantas, na área das instalações, quem controla a segurança do local é o próprio exército chinês, portanto quem visita o local recebe diversos conselhos de conduta, pois comportamentos inadequados como subir em muros para um melhor ângulo da selfie, podem levar à 15 dias de prisão.


NÚMEROS

Tem 2.300 metros de comprimento, com tres níveis de controle sobre a altura das águas, 135, 175 e 180 metros. Os geradores ficam a 80 metros abaixo do nível da água.

Local onde ficam os 32 geradores, na taipa da barragem






A usina ficou pronta em 2009 com 17 anos de projetos e execução, mas a parte dos geradores levaram 10 anos para serem construídas. A vida útil de uma hidroelétrica é de no mínimo 200 anos, conforme estudos geológicos. 

Um enorme sistema de eclusas foi construído para manter o rio navegável acima e abaixo da represa, com cinco escadas, existe uma rota de descida e subida, sem nenhum custo para as embarcações que necessitam utilizar essa complexo sistema de “escada das águas”.

Algumas pesquisas indicam que a Três Gargantas causou impacto no bioma aquático do rio. Isso aconteceu também no Egito, com represas instaladas no Rio Nilo. Na China impediu que um dos peixes mais famosos subisse a corrente do rio para reprodução. Um peixe pre-histórico, chegando a 7 metros de comprimento e podendo pesar até 800kg, quase o peso de um touro angus, esse era o esturjão chinês. Hoje eles tentam criar o peixe em cativeiro.


ENCHENTES

Como comentei no início, presenciei a maior enchente dos últimos 20 anos, e fiquei sabendo, não pelos jornais ou televisão, que uma outra cidade com milhares de pessoas foi completamente alagada, causando centenas de mortes. Foi uma decisão oficial. Evacuar o vilarejo pois a água seria liberada da barragem, amenizando a enchente nas cidades maiores da parte de cima da Três Gargantas. Durante essas enchentes conversei com alguns chineses que me explicaram que no canal aberto da CCTV, com maior audiência, o governo faz o maior drama para explicar o alagamento de uma cidade inteira dando como justificativa o fator desastre natural como principal causa.

O controle da vazão da hidroelétrica em épocas das cheias, é o pior desafio para manejar a água e evitar enchentes.

Durante a enchente, não tinha muito o que fazer, compromissos cancelados, cidade em alerta e muitos carros parados no meio das ruas. Mesmo depois de dois dias após as chuvas, algumas ruas seguiam alagadas. Era algo que me intrigava muito pois são especialistas em produção de arroz irrigado por gravidade, e como podiam as cidades possuírem um sistema péssimo de drenagem? Mas fez sentido depois de entender que o rural e urbano nunca se entenderam.

 O ex presidente ditador Mao Tse Tung escreveu em um de seus poemas sobre construir “uma parede de pedras que se ergueria no oeste e segurasse as nuvens, a chuva e se transformasse num lago suave…” Lógico que alguém usou este poema para dar ainda mais crédito ao falecido Mao como se ele estivesse prevendo em suas visões a construção da barragem. Mas de uma coisa ele estava certo, nesse lago o combustível é a água, suprida pelo incansável e imprevisível ciclo hidrológico.



March 12, 2017

SOJA BT ou INTACTA?


Campo experimental do Oil Crops Reaserch Insitute,
em Wuhan, Hubei.
Produzir soja resistente a lagartas ou  herbicidas na China, até um tempo atrás, era ilegal. Ainda pode-se dizer que é, mas já existem alguns dados que 10% dos produtores ligados a instituições de pesquisas, já estão plantando sementes com resistência a glifosato e lagartas. Os chineses defendem e promovem os transgênicos, com explicações técnicas para grupos de pesquisadores de vários países do oriente. Alguns pesquisadores, inclusive melhoristas de plantas que conheci durante o workshop, ainda têm restrições quando o assunto é biotecnologia. O mais interessante era o método de explicação dos chineses em como um alimento transgênico se comporta durante o processo digestivo em seres humanos e animais. Comprovando de forma molecular e precisa de que as absorções em nosso estômago e microbiota, que acontecem em nosso organismo, não absorve nenhum elemento de transgênico. 

O mais próximo que produzem de soja é o amendoim, que mesmo com muitas pesquisas não conseguiram aumentar tanto a produtividade de soja como no amendoim, que pode chegar a mais de 6.000kg/ha além do que muitos produtores não gostam de produzir soja, pois o amendoim é muito mais apreciado como alimento e o produtor pode comercializar no mercado local, já que a soja é mais utilizada para ração e óleo.

Outro assunto que achei interessante e que nos foi apresentado era a comparação entre o sistema de absorção de nutrientes dos seres humanos com o sistema de absorção das raíses das plantas que pode aumentar a eficiência de absorção pela bactéria Bacillus Paenibacillus, que promove boa eficiência na absorção de nutrientes tanto em humanos quanto nas plantas, se usada no tratamento de sementes.

Algo que me assustou um pouco foi a posição de alguns pesquisadores sobre a transgênia em seres humanos, do qual acreditam que nos próximos 10 anos algo irá repercutir. Se for para o bem, tranquilo.


Mas o negócio é o seguinte: Na China o milho e a soja transgênicos só são aprovados para serem processados em óleo de soja, farelo de soja e ração animal, e não diretamente para consumo humano, isso tanto para o que é importando como para o que é produzido internamente. Portanto, é permitido a produção de soja transgênica na China, desde que tenha como seu destino o processamento. A pergunta é: será que eles conseguem segregar isso na hora do produtor entregar esses grãos? Dizem eles que sim. Como? Não sei. Mas essa é a pergunta que gostaria de fazer na próxima oportunidade que eu estiver lá.

Os produtores plantam alegando que as cultivares são muito mais fáceis de produzir e consequentemente mais produtivas do que soja convencional, e essas tecnologias são todas chinesas, inclusive a soja Bt, que aqui no ocidente conhecemos como soja INTACTA. Os chineses já desenvolveram e patentearam outra forma de inserção do gene resistente às lagartas, diferente do método já patenteado com Agrobacterium. As patentes dessas biotecnologias podem ser quebradas legalmente e “repatenteadas” caso tenha uma diferença de 30% na sequencia de dna ou rna, se comparando com a sequencia da intacta. E foi assim que a China conseguiu patentear este outro tipo de soja resistente a lagartas. Daqui uns anos o Paraguai autoriza a produção e não vai levar muito tempo para as cultivares entrarem no Brasil legalmente, mas até lá, grandes chances de que a tecnologia Bt mesmo com diferente sequenciamento, não será mais resistente.


Informações diversas

- O maior consumo de óleo vegetal na China vem da Canola,

- Amendoim é muito consumido e produzido em quase toda a China e usado como rotação com arroz,

- Apenas um décimo da soja é consumida diretamente na forma alimentícia como tofu ou molho de soja ( shoyo) o restante é esmagada para se obter óleo e farelo.
Conversando com algumas pessoas que também já estiveram na China ou em outras regiões próximo de sabermos a resposta, seria melhor analisarmos um pouco o sistema de produção deles.

Se tu leu até aqui esse texto, vou pedir pra se inscrever no meu blog pra receber essa e outras digas sobre cursos subsidiados. Então segue o link pra se inscrever num workshop gratuito oferecido pelo governo chines, sobre produção de grãos " International Training Workshop on Safe Production of Grain". O curso vai ser de 11 a 30 de setembro de 2017. https://168.160.11.33/student_login.aspx


 - Entre 1984 a 2012 o tamanho médio das áreas dos produtores chineses é em torno de 0,8 hectares e com pouco aumento nos últimos 4 anos.

- Todo produtor deve pagar um imposto anual no valor de 600 dólares/ha por ano pelo uso da terra, do qual lhe dará direito de explorar essa área por mais de 20 anos, com renovação automática.

- A renda da maioria das famílias chinesas  gira em torno de 8 mil dólares por ano.

- Muitas pessoas não são registradas devido ter nascido na política de filho único, sendo que o segundo filho que nascia os pais não tinham como registrar perante a lei.

- É preferencial que tenham menores áreas que satisfaçam a produtividade, com os mais variados tipos de culturas e escalonamentos de plantio, desde que satisfaçam a produtividade para o país.

- Já existe falta de mão de obra, muitos filhos dos agricultores se mudando para grandes capitais. Por isso que o governo já tem um programa de ótimos incentivos para quem quiser se mudar com a família da cidade para o interior.

- Aqui o Site do Oil Crops Reaserch Institute

 - Os desafios de manejos em soja são os mesmos, ferrugem, mofo branco, ataque de insetos…

- Novas propostas de manejo integrado com biopesticidas





February 19, 2017

RESERVA DE GRÃOS E CARNES


RESERVA DE GRÃOS

Centro demonstrativo de agricultura moderna de Hubei
Uma das reuniões que mais me chamaram a atenção foi sobre como a China gerência toda sua produção de grãos. Antes de tudo, gostaria de salientar que a Organização Mundial para Alimentação e Agricultura (FAO) informa e recomenda que a reserva de grãos dos países devem manter em estoque em torno de 17% do total de grãos produzidos de soja, feijão, trigo, milho e arroz. O Brasil esta um pouco abaixo da recomendada, com 7% de estoque. Muito de nós não sabemos que esses grãos estão diretamente ligados com a segurança alimentar e estabilidade econômica na maioria dos países. A reserva chinesa é de 25% de seus grãos, ou seja, de todo grão que esse país consome, deve ter um estoque de 1/4 de toda produção produzida e importada. Só com as reservas de milho da China, poderiam encher quase 40 estádios do Maracanã. 

É impraticável serem auto suficiente na produção de grãos, pois o consumo e as reservas são muito grandes sem falar que e não têm áreas suficientes para produzir no atual sistema agrícola. Existem projetos já sendo implantados para unificarem as lavouras e facilitar o uso de mecanização e novas bio tecnologias. Tive a oportunidade de conhecer o Oil Crops Research Institute, de pesquisa em óleo, no qual eu e meu colega Pitur professor e diretor da faculdade de Agronomia de Bangladesh, fomos muito bem recebidos e tivemos uma longa e prazerosa conversa com o pesquisador Chen-mio, sobre novas políticas para a integração dos sistemas agrícolas na China.


NOVAS COOPERAÇÕES COM OS AGRICULTORES

Querem criar grupos de produtores para mecanizar, ficando mais fácil e eficiente de produzir, com um trabalho unificado, administrando a produção de forma empresarial. Por meio de um novo modelo de arrendamento de terras por holdings, os produtores acabam se tornando a mão de obra para produzir, recebendo muito bem para isso, garantindo uma rentabilidade maior. As áreas serão manejadas e administradas por empresas ligadas ao governo. 

Em alguns países da África, algumas corporações já tentaram criar esse tipo de programa de gestão em unificar produtores, porém sem sucesso. Mas na China tudo é possível, ainda mais com a severa imposição ditatorial, e as vezes benéfica, do governo. Se isso acontecer, teremos um aumento na produtividade e maior mecanização das fazendas, que será a nova revolução verde asiática dos últimos tempos.

Nesses trinta dias que fiquei na China, consegui captar diferentes percepções, informações relevantes sobre os sistemas de produção, políticas agrícolas, características culturais, filosofias, superstições e análises fundamentalistas de grãos que se contradizem com informações de jornais ocidentais.

Workshop na Universidade de Agricultura de Huazhong 
Agricultura convencional. É o que resta, por enquanto, para a maioria dos produtores rurais chineses, o governo compra boa parte da produção com preços maiores que o do mercado internacional, de áreas com tamanho médio de 0,8 a 1 hectare. Ué? Mas porque não 0,9? Talvez porque não seja simples estimar uma população de 500 milhões de habitantes nas zonas rurais, sendo que 300 milhões são produtores rurais em 30 milhões de hectares. 
É… As vezes não podemos nos basear somente em números para julgarmos as realidades.

As vezes ouvimos algumas notícias de que a China irá aumentar sua área cultivada de soja. Todo ano saem notícias assim, de jornais alarmistas. São com notícias sensacionalistas que alguns jornais de países dependentes da venda ou da compra de grãos tentam manipular os investidores para baixar ou aumentar os preços, dependendo do interesse. Mas iriam deixar de plantar 2 milhões de hectares de milho por soja. Uma vez essa notícia veio de um jornal inglês. A maioria dos países europeus são importadores do grão. Suspeito. Ou seja, 2 milhões de hectares de soja na China seria uma quantidade equivalente a 1 mês de importação. A maioria dos grãos de soja produzidos na China são para consumo humano. Tipo tofu, leite de soja, shoyu ou mesmo in natura com alho óleo e alguns temperos. Em torno de 6% de toda soja produzida no mundo é consumido dessa forma na Asia. O restante vira farelo e óleo.


                                           Lavoura de soja no interior da província de Hubei 

A China irá continuar importando soja para processar em forma de óleo vegetal 50% e o restante e farelos e subprodutos, principalmente para alimentar aves e suínos. O óleo vegetal, tanto de soja, canola, milho ou amendoim, foram um dos principais fatores de aumento na qualidade de vida das pessoas na China. 


CONSUMO DE CARNE

Os chineses também estão comendo carne bovina. Alguns restaurantes mais especializados, notei que já têm no cardápio carne bovina importadas da Austrália e Estados Unidos, com marmoreio, maciez e sabor. Quando o governo chinês decidir incentivar a produção de gado confinado, com certeza terá uma demanda ainda maior pelo grão de soja para alimentar esses animais. Mas acho isso difícil de acontecer, a não ser que se mude muito os sistemas de produção. Na província de Hubei, vi alguns produtores de pecuária utilizarem pastagem cultivada para engodar os animais, que aparentemente apresentavam escore baixo. Para quem conhece confinamento, sabe que um animal precisa se alimentar de no mínimo 3% de seu peso vivo com farelos ou grãos energéticos e proteicos.

Alguns índices indicam que o Brasil ultrapassou a Austrália nas exportações de carne bovina. Na capital da China central, em Wuhan, só vi bandeiras dos estados unidos e Austrália impressas nos cardápios de carnes nesses restaurantes especializados.

O consumo per capita desta carne na China está quase batendo o recorde de 4kg por habitante por ano. Um boi gordo no Rio Grande do Sul, poderia servir 5 gaúchos, enquanto que na China mais de 60 chineses. Ou seja, se realmente aumentar o consumo de carne bovina, e isso irá acontecer gradualmente, seria mais barato abrir mão de alguns milhares de hectares de grãos de seu mercado interno para produção própria de gado confinado, importando essa diferença em grãos.

Tudo vai depender no rumo da política agrícola chinesa. É ela quem guia os produtores, tanto na China quanto no Brasil. A China está muito mais interessada em produzir e investir na produção de óleo vegetal do que em fontes de proteína. Se o partido decidir incentivar os produtores rurais chineses a produzirem carne bovina o consumo irá aumentar, e pelo que percebi não duvido que isso demore para acontecer, teremos uma demanda ainda maior de nossa oleaginosa. 

September 12, 2016

3 FATORES PARA O SUBSÍDIO AGRÍCOLA ORIENTAL


Desde o final de 1999 ocorreram diversas reformas da política agrícola na China e continuam até hoje, sempre visando um objetivo. Muitas dificuldades e limitações da venda de grãos, foi um dos motivos das reformas, financiando os agricultores para segurarem e manterem as reservas.

O Banco de Desenvolvimento Agrícola Chinês cria linhas de negócios para o mercado e empresas são responsáveis pela aquisição, armazenamento, transporte, exportação e importação. São corporações governamentais que controlam e centralizam toda a compra de grãos, os estoques internos e importações. Nos últimos anos os armazenamentos de soja foram os que mais aumentaram as reservas, chegando em 170%. Mesmo tendo a chance de perguntar para o especialista no assunto, ele não informou a quantidade da reserva em toneladas de soja, somente o percentual desta reserva, mudando de assunto após a pergunta. É, esse aprendeu bem os mandamentos de Confúncio que dizia: armazenar conhecimento em silêncio é algo natural para evolução.

O Banco é quem financia, facilita e supervisiona esses empreendimentos, que são instalações de grandes cilos e galpões para armazenarem grãos e principalmente para produção dos produtores rurais chineses. Gerencia e administra os recursos do governo para compra de todo tipo de grão dos agricultores e da soja que vem do Brasil.  É ele quem coleta e faz os levantamentos das informações fornecidas pelas Províncias (Estados) e obtém um número totalitário das reservas para então tomar decisões. E o que o subsídio tem haver com isso?


1. O subsídio é uma forma de influenciar os agricultores a estocarem sua produção e criarem a melhor forma de reserva considerada pelas autoridades administrativa. Mesmo assim existem muitas dificuldades de guiar os agricultores com esse recurso extra. A grande diversidade de grãos dificulta a quantificação exata destes estoques. Foi dessa forma que a China tem cada vez mais investido em novos empreendimentos para estocagem de grãos e nas indústrias para processar alimentos em forma de conservas, com datas de validade. Garantir segurança alimentar com preços estáveis no mercado interno. 
2. Quanto maior a variação de subsídios para os produtores maior o repasse e variação de impostos cobrados para a população urbana, que visa ter um alimento mais barato. Esse subsídio é conforme a necessidade de reserva pela intervenção do governo. Mas ao mesmo tempo cria multicanais de reservas utilizando os agricultores, empresas e indústrias. Desta forma diminuí ações governamentais como comprador de grãos, no entanto o partido sempre supervisiona para garantir a segurança alimentar. 
3. É mais barato para qualquer autoridade administrativa ter como armazenador dessas reservas o próprio produtor rural, pois o preço do subsídio é muito menor do que se tivessem que comprar esses grãos para armazenar e depois vender para indústria.

O termo segurança alimentar é mencionado pela maioria dos professores, analistas econômicos e políticos dos workshops na China, por causa da grande fome. Foram três anos de desastres naturais e péssimas políticas econômicas que causaram fome em massa, resultando na morte de milhões de pessoas. Por isso a grande preocupação com a segurança alimentar.

Será que não falta política de reserva de grão na maioria dos países da America Latina? As vezes pensamos o quanto queremos interferência do governo na nossa economia agrícola. O caso é que já existem experiências com e sem intervenção em países com regimes totalmente opostos, e mesmo assim é sabido que a agricultura precisa de políticas agrícolas de longo prazo. Se existisse esse plano, seria mais garantido para o produtor gaúcho produzir trigo, por exemplo.

Talvez a cultura imediatista dos produtores rurais brasileiros seja devido ao nosso Plano Agrícola de curtíssimo prazo, mais curto que coice de porco, digamos assim. 

Muitos chineses não são religiosos mas são muito supersticiosos. Eles se baseiam muito na natureza, criando sempre respostas positivas sobre os piores problemas a serem enfrentados, com expressões simples e objetivas.

 No ano do porco, eles comem muita carne deste animal, aproveitando cada membro, no ano da cabra fazem sopas, bolinhos de carne…  Esse ano esta sendo considerado pelo zodíaco um ano de criatividade, movimento, inovação, improviso, liderança e extroversão. É o ano do macaco. 




Alimentos processados e conservados a vácuo é uma forma de reserva.
Também considerado pelos chineses como "junk food".

July 5, 2016

Treinamento na China - Agriculture Report to Hubei Provincial Seed Group



Recebi alguns emails perguntando sobre o programa “International Training Workshop on Crop Seeds Technology” em Hubei na China, então resolvi explicar alguns detalhes de como conseguir vaga para participar. Vou expor aqui o relatório agrícola que fiz, que é solicitado para a inscrição. A exigência é que se tenha experiência técnica de no mínimo 2 anos na área de sistemas de produção agrícola, produção e mercado de sementes, melhoramento de plantas, comercialize ou seja consumidor de sementes ou qualquer outro assunto relacionado a pesquisa no assunto. Vou colocar abaixo o texto, em inglês, com algumas fotos dos slides que apresentei. Cada um teve em torno de 30 minutos para falar.

Aproveito para deixar aqui um provérbio chinês, época da Dinastia Song (920-1279) que fala sobre uma das virtudes que o produtor rural sempre deve ter:

“Um produtor estava muito ansioso para fazer com que sua lavoura crescesse mais rápido. Ele pensava dia e noite em achar alguma forma para agilizar o crescimento das plantas. E parecia que a cultura tinha um crescimento muito mais lento do que ele esperava. Um dia, ele veio com uma ideia de que iria arrancar todas as plantas e plantar um pouco mais acima do solo. E na outra safra assim o fez. Ele estava muito cansado depois de fazer isto durante um dia inteiro, mas sentia-se muito feliz pois a cultura já aparentava ter um tamanho maior. Depois de um tempo, infelizmente, as folhas das plantas começaram a murchar.“  

Este provérbio tem o significado de que temos de deixar as coisas acontecerem de forma natural. Se formos muito ansiosos para resolver os problemas, os resultados podem ser contrários da intenção. Paciência é uma virtude da natureza.


Bom, segue abaixo, de barbada, um resumo do texto que enviei e apresentei durante o treinamento. O  título do curso é mais ou menos como workshop em produção e tecnologias de sementes, mas na verdade, discutimos diversos assuntos relacionados a produção agrícola e não sós sobre semente. Dessa forma acabei sendo bem feliz com minha apresentação, pois mostrei diferentes pontos sobre produção agrícola no Brasil que foram combustíveis para diferentes discussões durante todo o curso.

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Agriculture Report - RELATÓRIO AGRÍCOLA

Marcelo Chiappetta - Agriculture Report to Hubei Provincial Seed Group - Training Workshop 2016

INTRODUCTION

The farm lands and storage are located in Rio Grande do Sul State, southern Brazil. Rio Grande do Sul lies within the south temperate zone and is predominantly humid subtropical. There are four relatively well-marked seasons and rainfall is well distributed throughout the year, but occasional droughts can occur. The winter months, June to September, are characterized by heavy rains and by a cold southwesterly wind. Rainfall in the region generally averages between 1800 and 2000 mm.

Grouped up in one single property that cares silos, warehouse, deposit, harvesters, seeds equipments, classifiers and all the other equipment needed to process it, the farm has the main objective to raise as an independent grower and utilize sustainable management at the agriculture seed and commodities production and reinvest on the company structure, environmental and social projects providing scholarship opportunities to the children of our employees. We work with high technologies and biotechnology in seed, equipments, new chemicals molecules and crop management.

Our enterprise started as a family farm where we produce soybeans, sudan grass, millet as an independent grower and corn seeds in vertical scale, and forage crops such as black oats, radish, rye and rye-grass seeds in a nice owned area. During 50 years we obtained good field experience in how to produce and process quality seeds. We work together with private and public breeding companies, where we multiply the genetics seeds in our fields, harvesting, processing, packing and commercializing to distributors and agriculture producers.

 I am involved in the following areas: seed production, farm management, soil and fertilizer analysis for good quality seeds, no-till farming systems, seed and grain price analysis and fundamentals. We are always interesting in exchange knowledge and experience with other companies to evolve, to have mutual benefits and being a contact to Chinese companies in southern Brazil.


BRAZIL AGRICULTURE OVERVIEW

Brazil is a massive and important producer and exporter of grain and oilseeds. Its flour milling industry, concentrated in the south, depends on imported raw material. Logistical problems remain an issue for the grain industry, adding cost to exports. Total soybean production in 2015-16 it was almost 100 million tonnes (MT) and exports around 45MT. Corn production is also around 100MT. Wheat production is around 6 MT, rice 10MT. Total grain exports at 25 MT. Imports are mostly wheat at 6.8 MT, according to Rabobank.

As mentioned by Ministério da Agricultura, Brazil has more than 200 million cattle and it became a very important meat exporter country. Beef and milk cattle farmers are using more technology in order to get more kilograms of meat or liters of milk per hectare. The forage seed demand come mainly from grass, but it also helps to increase organic matter in the soil and less soil erosion, that is no-till farming system. During winter crops, we can choose if we grow cereals such as wheat or oats to harvest, and in some area raise cattle in an integrated livestock-crop system.


FARM MANAGEMENT

In Rio Grande do Sul State, most cases we can harvest two crops per year. Soybeans in the month of April and plant cereals or forages between May and July to harvest in November. But there is two possibilities of management to grow 3 crops per year:

a) After soybeans, we can grow two crops, the forages are used to cover the soil. There is a possibility to use aerial planting, 30 days before harvest, in March, an ag aircraft spread seeds over the soybean field, sudan grass or radish, reducing the period of time for the forage to develop. If the next summer crop will be soybean again, it will be planting in the end of October until the end of November, depending the cultivar cycle, so there is a possibility to harvest the cover crop in June and plant a different cover crop and harvest on October, before planting soybeans again. That is the most efficient seed production management but it all depends on the soybeans and forage cycles.


b) Planting corn between august and September, harvest in February, and plant sudan grass as a cover crop, not thinking in harvest the seeds, only to protect the soil during rainy seasons and recycle soil nutrients. Desiccate with herbicide the sudan grass and plant radish, oats or wheat. The risk of planting corn too early in August is the risk of frost, because Rio Grande do Sul State is in Southern Brasil, and in winter between June and September is very common to have frost. Frequent farm managements are soil and fertilizer analysis, no-till farming system, grain and seed price analysis and fundamentals. 


SEED POLICY

Soybeans are our main crop. In Brasil there are a great deal of soybean cultivars. Most of the cultivars do not last more than 5 years, because the industry always release new genetics almost every season, but most of the southern farmers are resistant to change in the way of farming, mostly because the apprehension of the cost of production and claiming that the way they do has always being productive, but there are some new opportunities to the seed industry.

To produce seeds in Brasil, all companies has to request a register in the Ministry of Agriculture, and every field with seed production are controlled. The producers send all the documents by online systems and will be reviewed and approved or not by the supervisor from the Brasil's Ministry of Agriculture. 

Most of the Breeding Companies in Brasil protect their cultivars. It means that Sementes Chiapeta, as an independent seed grower, needs an authorization to multiply their seeds. But there are some cases, that public cultivars can be growth by any seed grower without the breeding company authorization.
Farmers in Brasil are not allowed to sell seeds to other farmers if they are not register as seed producers, but they can save and reserve the seeds to produce next year, and that is one of the challengings for the seed industry.  Some breeder companies, are charging farmers for saving theirs seeds claiming the usage of a new trait technology. So, if a farmer wants to save seeds, he needs to fill up a special document and register that document at Ministry of Agriculture.



NEW PARTNERSHIPS

 A good breeder program is what we look when choosing a cultivar or a Breeding Company to start working with as a partner. The technology used resulted in an important growth in volume rather than just in area, even with irrigation. The combination of better cultivars, agricultural input and crop management practices increased the yield in several crops that we work. Around 15% of our customers, are agriculture producers, in general purchased their seed needs from the company. The rest of the seeds we produce are commercialized with the Breeding Company, in vertical scale, and retails. When we sell seed direct to agriculture producers, we also do an extension program to follow the farmer during his planting season and plants development. Distribution and retail chains has growth in the past years in Brasil and the available information on consumer preference, specially retailers, so we started to focus in a coordination of agribusiness system that enables the management of seed quality.


We also have empirical researches in local areas about southern brazilian agriculture. We notice that some has been frequently subdivided according to socioeconomic and technological characteristics. Subsistence agriculture and small agriculture, that normally uses native seeds and exchange between them according to FAO, and normally do not use higher seed technology. But there are the farmers between subsistence and small. There is a big market share of commercial and corporate agriculture, that cares about seed business and a way to increase yields, helping farmers to have a better life quality and grow with new seed technologies and information about production.









Marcelo Chiappetta
20/05/2016 

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Xie-Xie!!




June 13, 2016

Treinamento na China - O governo oferece vários cursos, e de graça!.

Foi durante um congresso da ISF (International Seed Federation) em Krakow que descobri sobre esse programa de treinamento oferecido por uma estatal chinesa, durante uma conversa com uma senhorita de uma empresa de sementes. Após pouco mais de 1 ano de espera para abrirem novamente as inscrições, consegui aplicar para o programa e na mesma semana já entraram em contato para dar continuidade nas entrevistas e conclusão da aplicação.

Foram uns 30 minutos de entrevista e depois tive que enviar um relatório das atividades que executo como produtor rural e produtor de sementes, vou fazer um texto depois explicando melhor isso.

Existe uma lista bem grande de outras bolsas oferecidas pelo governo chinês, se alguém tiver interesse entre em contato comigo que posso conseguir mais informações para esse e outros treinamentos. Só para ter idéia, tem até workshop para acupuntura! Nada haver com agricultura, mas a diversidade de cursos é grande!

Pois bem, passarei 30 dias em Julho, 20 dias de treinamento intensivo, a convite do governo da grande República Popular da China, imerso em um treinamento sobre produção agrícola, tecnologia de sementes, gestão e sistemas de produção.

Após a conclusão dessa treinamento, a idéia será relatar um pouco neste blog de como foram os aprendizados lá.

































Aqui ó :
http://www.cistc.gov.cn/Training/English/details.asp?column=951&id=90538

June 12, 2016

Rússia: agricultura, kolkhoz e patriotismo.



A primeira vez que fui para Rússia foi em Junho de 2013, no Sudoeste, região de Krasnodar e Gelendzhik, próximo ao mar negro, região com solos extremamente férteis com alto teor de matéria orgânica, onde tive oportunidade de visitar certas lavouras de trigo e participar de um congresso da Russian Grain Union,  equivalente a uma União da Federação Russa de Grãos, entidade que estuda o mercado de grãos daquele país e região. Desta vez vou tentar descrever informações gerais que ouvi e anotei durante minha estadia no mês de Junho de 2016 neste grandioso país. Foram conversas, palestras e workshops junto com a experiência de conhecer uma extinta fazenda coletiva.

CONFERÊNCIA DE FERTILIZANTES E AGRICULTURA

Desta vez estamos participando de reuniões sobre o mercado de fertilizantes e do mercado de grãos. A maioria das conversas se davam durante pausas para o café entre algumas apresentações e reuniões previamente agendadas no lobby do hotel ou em salas de reuniões privadas, que certas empresas dispunham. Foram em torno de 1.200 participantes e mais de 90 países. Todos com o mesmo interesse: o mercado de Fertilizantes e Agricultura. 



MERCADO DE GRÃOS

Sala de Reuniões
Estamos passando por uma situação bem peculiar com a valorização de nossos grãos. A maioria das pessoas que conversamos demonstram receio sobre o mercado brasileiro e muitos consideram o Brasil um país difícil de investir e fazer negócios devido a instabilidade política, que avacalha com tudo. Na minha opinião, quanto menos interferência do governo melhor, devendo este ficar somente responsável pelos tres pilares: educação, saúde e segurança. Enfim, como éramos os únicos produtores rurais participantes do evento, sempre deixávamos claro as terríveis dificuldades que é ser produtor no Brasil e mesmo assim, o orgulho que temos em produzir.


Em outros países produtores de grãos na Ásia, diferente do Brasil, os preços destes produtos caíram na maioria dos mercados internos, fazendo com que os agricultores investissem menos em suas lavouras, reduzindo o uso de insumos e utilizando até 40% menos fertilizantes. O investimento de adubo tanto em uma lavoura de altas produtividades no Brasil, China e outros países fica em torno a 45% para o produtor. Sabemos que não existe ótima produção de grãos sem uso eficiente de fertilizantes, portanto esse corte nos custos deve ser bem avaliado conforme o tipo de solo, cultura, reposição de nutrientes... para cada área em questão. Um assunto que não foi comentado em nenhuma palestra foi a utilização de forrageiras, adubação verde com plantas de cobertura do solo como forma de reciclagem de nutrientes e aumento de matéria orgânica, muito utilizado em nosso país. Claro, a intenção da maioria das empresas participantes é que os produtores utilizem mais fertilizantes, e não tenha interesse em alternativas para este produto, para eles aquela é a melhor alternativa, o agricultor é quem deve buscar ferramentas adequadas para sua realidade.


FERTILIZANTES E ECONOMIA MUNDIAL

Ballroom I
Muito se falou sobre o contexto econômico atual e os 3,5% de PIB médio mundial. Ter um PIB baixo não é bom pra nenhum país nem pra ninguém, pois causam violências e até guerras. Mas não acho pouco desconsiderando as disparidades entre blocos econômicos. Incluindo todos países, não se tem nenhuma perspectiva de crescimento progressivo até meados de 2020. Esse cenário não favorece nenhum setor, mesmo existindo uma efervescência com o atual preço dos grãos no Brasil. O preço dos farelos afeta o preço da produção de frangos, suínos, leite e em alguns casos da pecuária de corte, gerando inflação.

Segundo as principais organizações mundiais de análise de consumo e oferta de alimentos baseados em grãos, a FAO, USDA e IGC, o uso das commodities agrícolas não têm um rumo muito definido pois cada  uma dessas organizações têm perspectivas diferentes entre si. Uma diz que o consumo vai ser menor que a oferta de alimentos, outra relata que será equilibrada e o outro argumenta que o consumo será muito maior que a oferta. Mesmo com tanta facilidade de acesso à informação ainda existem incertezas quanto a oferta e demanda de alimentos no mundo e acredito que é em virtude dessa imprevisibilidade que torna a agricultura tão atraente, ao risco.

URÉIA

O preço do petróleo nunca esteve tão baixo, e essa deflação tem impacto nos preços dos fertilizantes, especialmente a uréia. Petróleo com preços baixos em vários países, menos no Brasil, gás natural em abundância e carvão barato na China, é o que esta tornando a uréia a ser vendida num preço médio de 200USD por tonelada na fonte. A China, como qualquer outro produtor de matérias primas, tem muito interesse em comercializar fertilizantes direto para grupos de produtores rurais brasileiros. Existem alguns grupos de produtores rurais que já fazem isso, tudo para cortar custo de produção e conseguir melhores margens na compra do insumo mais caro para formação de uma lavoura.


FOSFATO E POTÁSSIO

O fosfato ainda se tem capacidade de exploração e produção para mais 40 anos, sem nenhum esforço extra em ternos de expansão de novas minas, tornando seu preço estável por um bom tempo devido a oferta. Para o potássio esta ocorrendo um aumento na produção e abertura de novas minas, gerando um leve aumento de custo de produção das mineradoras, que pode aumentar um pouco o preço no mercado para o restante da cadeia.


COMO AGREGAR VALOR NOS FERTILIZANTES

O que vejo sobre esse assunto é que todo e qualquer adubo tem a mesma origem, e as vezes vem do mesmo navio e a mesma carga é distribuída para diferentes empresas de fertilizantes misturadoras no Brasil, que vendem esses adubos para o consumidor final. Pois bem, a única forma de se agregar algum valor nesses fertilizantes seria com adição de adjuvantes, corantes e as vezes alguns micronutrientes, de que nem sempre nosso solo esta precisando no momento, e é isso que as empresas de fertilizantes estão tentando fazer para se diferenciar, agregando valor e vender para o produtor rural um produto "diferenciando". Agora, dizer que a granulometria do adubo é diferenciada do concorrente, sendo que sabe-se que vem da mesma mina, da mesma fonte de matéria prima e até mesmo do mesmo navio. Pode ser considerado uma grande ladainha. Por essas e outras que sinto uma enorme necessidade de entender bem a cadeia que envolve o agronegócio.


JOVENS LIDERANÇAS

Turma Workshop Young Leaders
Um dos treinamentos tinha como tema de debate as Jovens Lideranças no mercado de fertilizantes e corporações agrícolas da qual também tive oportunidade de participar. Um russo uma alemã e um canadense, com mais de 30 anos de experiência no mercado, discutiam sobre assuntos bem específicos ao tema.  Uma das sugestões era de que esses jovens tivessem mentores dos quais pudessem pedir conselhos, de preferência mentores de dentro da própria empresa e de no máximo 2 cargos acima. O ponto mais positivo que achei nesse workshop foi a conclusão sobre que esses jovens líderes não percebem e não se importam  tanto com as distinções e diferenças entre gêneros e raças dentro das corporações, assunto um tanto mais controverso para executivos a mais tempo no mercado, portanto é uma geração de novos executivos que estão surgindo com novas percepções culturais de inclusão, esperamos. 


KOLKHOLZ, FAZENDAS COLETIVAS

"Produtores, protejam suas áreas da classe inimiga"    
Enormes complexos habitacionais em forma de blocos ainda arranham os céus de Moscou, mesmo em alguns vilarejos mais afastados da capital. Apartamentos foram oferecidos à população pelo regime comunista em uma espécie de reforma imobiliária. Porém com a queda daquela ditadura, a maioria dos apartamentos foram vendidos aos seus residentes por valores simbólicos. O mesmo aconteceu com as fazendas coletivas, chamadas Kolkhoz, pronuncia-se "colrróz". No auge do sistema foram confeccionadas diversas propagandas em cartazes sobre aquele sistema de produção, algumas incentivando o trabalho no campo e atrair pessoas urbanas ao meio rural e outras externando a guerra entre as classes sociais.

Visitamos uma antiga fazenda cooperativista. Mas hoje em dia todas essas propriedades que eram do governo foram vendidas para empresas privadas com proprietários que administram e trabalham para produzir objetivando retorno financeiro privado.


TRADIÇÃO NA AGRICULTURA

Muitos homens e mulheres, com pouco ou nenhum conhecimento na área agrícola, eram forçados a saírem das cidades e irem morar e trabalhar nessas fazendas. Em certos casos o governo simplesmente solicitava que alguns produtores, já habituados com os manejos de uma lavoura de trigo por exemplo,  abandonassem essa cultura para iniciar uma produção de hortaliças na mesma área. Fico imaginando como seria se de um ano para o outro fossemos deixar de produzir soja, milho ou forrageiras para iniciar a produção de uma cultura totalmente desconhecida para mim, como por exemplo a batata. Lógico que os equipamentos e insumos eram todos fornecidos pelo governo, mas mesmo assim deveria ser um impacto para o produtor rural. Mesmo impacto que ocorreu quando houve um incentivo aos produtores de tabaco em algumas regiões do Rio Grande do Sul a abandonar a cultura do fumo pela produção de cítrus. Tudo bem que para quem olha de fora o empreendimento administrativo e gestão dos recursos não mudaria muito, mas para o produtor os manejos e conhecimento técnico seriam totalmente novidade.
A dominação soviética foi tão severa que impactou profundamente na vida cultural de algumas tribos da região da Sibéria e leste da Rússia, interrompendo os costumes étnicos, crenças, manejos de pesca e sobrevivência. Todas as formas e métodos de caça em convivência e harmonia com a natureza foram perdidos pra sempre pela imposição política do regime comunista.


ASPECTOS CULTURAIS DA PRODUÇÃO AGRÍCOLA RUSSA e URSS

A maioria das fazendas num raio de 200km da capital Russa consistem em propriedades produtoras de leite. Os russos comem muito queijo e derivados, alimentos farináceos, uma diversidade de carnes e miúdos saborosos, bebem muito leite e deliciosas "Bodkas" para aquecer o corpo durante o inverno que pode chegar até  -40C em algumas regiões urbanas. Os extintos Kolkhoz que visitamos ficavam a uns 80Km ao nordeste de Moscou, próximo de Yaroslavl. Não foi tão fácil conseguir autorização prévia para visitar a propriedade, que hoje tem toda sua operação de ordem privada. A sede da fazenda é cercadas por enormes compensados de metal e cancelas com seguranças, muitas vezes bem mal encarados, que fazem o controle da entrada e saída de pessoas. Ninguém mais na Rússia conhece essas propriedades pelo nome de Kolhkoz, a maioria das fazendas e empreendimentos agrícolas tem um novo nome, escolhido pelo proprietário conforme a razão social.

Campo nativo próximo a Yaroslavl
Na região que visitamos existem muitas áreas paradas, em pousio, e os campos nativos crescem em abundância. Nesses casos os proprietários dessas áreas devem mate-las limpas e roçadas, caso contrário o governo daria como improdutivas e poderia tomar de volta a área. Sim, tomar de volta, pois a maioria delas faziam parte dos Kolkhoz que foram vendidos por preços simbólicos para novatos e de certa forma inovadores empresários russos no fim da URSS, a pouco mais de 30 anos atrás. Inovadores, pois seriam os pioneiros em seu país ao criar uma empresa agrícola. A maioria dos proprietários de áreas rurais não são exatamente produtores rurais e nunca foram pois somente possuem a terra mas nunca produziram nada. Eles arrendam ou muitas vezes nem isso. Liberam a área com campo nativo para produtores de pecuária e leite que possam pastorear com propósito de fazer uma roçada natural deste campo nativo para provar ao governo que são áreas produtivas, impossibilitando a desapropriação. 


VISITANDO A PROPRIEDADE RURAL

Fomos recebidos no escritório da propriedade, dentro de um novo pavilhão, pela administradora que se chamava Olga. Estávamos em tres brasileiros, eu, Gustavo e Luiz nosso pai, junto com Aleksa nossa guia e tradutora do russo para o inglês. Ela quem nos contou que sua mãe havia trabalhado em um ministério do governo comunista e explicou como funcionavam os imóveis naquela época. 
A empresa agrícola que visitamos tem menos de 1 ano de operações, possui 180 vacas em lactação e 12 funcionários, sendo a maioria mulheres, em uma área total de 1.000 hectares, onde o hectare vale em torno de R$3.000,00. Poderiam ter mais vacas, só não o fazem pela falta de instalações e equipamentos.

Novas instalações de ordenha
A produção média de leite é 20 litros por vaca e é vendido entre R$0,20 a R$0,35 centavos por litro, muito abaixo do preço vendido pelos agricultores no Brasil. Ela não nos informou seu custo de produção, porém as vacas se alimentam de pastagem nativa bem diversificada, não colocam nenhum tipo de adubação, pouquíssima suplementação e antes do inverno rigoroso reservam uma área para cortar e fazer silagem, uma espécie de conserva de pasto que é para durar durante o inverno inteiro, 5 meses de pura neve. O solo é um pouco arenoso e bem diferente da região dos grãos em Krasnodar, onde se encontra solos pretos. Durante nossa conversa com Olga, ficamos curiosos em conhecer o antigo pavilhão que ficava mais afastado e seria totalmente reformado e transformado em um novo complexo para novas ordenhadeiras. Após mais algum tempo de conversa, Olga perguntou se nosso interesse era vender ou comprar algum produto. Mencionamos que estávamos visitando o empreendimento apenas para trocar experiências sobre produção agrícola. A partir de então, suas respostas começaram a ficar mais curtas. Resolvemos seguir adiante, agradecer pela recepção e ir visitar as novas instalações de ordenha. Nada muito diferente de nossa realidade, a não ser pela belíssima música clássica que tocava para as vacas durante o período de ordenha. 

Quadro elétrico do antigo Pavilhão    
 Instalações do antigo Kolkhoz












Nos despedimos e entramos no carro, durante o caminho até a cancela da saída, nos deparamos com tratores e caminhões praticamente abandonados no tempo e mais adiante o antigo pavilhão da época da URSS, provavelmente da mesma forma que foi deixado no início dos anos 90. Paramos o carro, descemos e entramos por uma abertura azul. Eram as instalações de um antigo Kolkhoz. 
Tratores praticamente abandonados
Depois de alguns minutos, ouvimos vozes vindo de fora do pavilhão se aproximando, alguém gritando. A língua russa já é um tanto estranha para nós, gritando é mais ainda e pelo tom que se ouvia não parecia ser amigável, foi quando Aleksa falou que devíamos ir embora. Era Olga, feroz por termos entrado naquele antigo pavilhão soviético sem a devida autorização. Fomos praticamente escoltados até a saída. Nos restou apenas rir e ao mesmo tempo ficar na dúvida se o homem mal encarado que acompanhava Olga possuía ou não o famoso fuzil soviético AK-47 em seu veículo.



UM POUCO DE HISTÓRIA:  QUEM FORAM OS COSSACKS

Para alguns moscovitas que conversei, muitos acham que Ucrânia esta voltando a fazer parte do território Russo, por incrível que pareça. A maior parte da população russa é extremamente patriota, característica que vem de alguns séculos de muitas guerras sangrentas. O país vive um momento de sanção comercial devido a anexação da Criméia, o que vem se intensificando pela nova guerra no leste da Ucrânia contra forças separatistas. É visível que o interesse da Russia são os recursos naturais e o solo fértil daquele país. Um exemplo bem chulo mas seria como se o Brasil quisesse anexar o Uruguai de uma hora pra outra.  Esta sendo graças ao apoio de soldados que lutaram e lutam por novos territórios e a defesa das fronteiras desde antes dos impérios Czares ou Tsares do ano 1700. Esses soldados são os Cossacks. 
Cossacks do início do século 19. (fonte: Royal Russia News)

Dito como extintos desde 1917 pelo exército vermelho, mas permanecem atuantes, lutando por causas de interesse próprios ditos nacionais. Esses grupos de soldados Cossacks, sobrevieram durante gerações e são considerados um tipo de patrulha policial independente que impõe moralidades, formado por voluntários que se consideram descendentes diretos e indiretos. Durante a guerra na Criméia e agora na tentativa de anexação da Ucrania, os Cossacks não têm autoridade de prender ninguém e nem portar armas de fogo, somente espadas, isso é o que diz o governo russo. Porém muitos concordam que atualmente a presença dos Cossacks intimidam e ameaçam mais do que os próprios soldados. No entanto existem muitos argumentos controversos de que esses soldados independentes são ilegítimos. Grupos oficiais não admitem certas atitudes e protestos que vem ocorrendo atualmente dentro e fora da Rússia, pois mencionam que alguns atos vão contra os idéais da origem destes antigos guerreiros. Qual seriam exatamente esses ideais?  Acredito que seriam vários, pois facilmente qualquer pessoa encontra no varejo algum tipo de uniforme, conforme o da foto abaixo, e a partir de então podem-se autodenominar um Cossack.
Novos Cossacks - (foto: Le Guardian)

Essa atitude conforme os grupos oficiais, esta ofendendo o sentimento e honra dos verdadeiros ancestrais e suas famílias. Foram relatados no último senso cerca de 7 milhões de pessoas, incluindo a Rússia e outros países da antiga União Soviética, dizendo-se descendentes destes "cavaleiros da liberdade". Acontece que muitos desses grupos são considerados falsos e perigosos, pois são financiados por recursos duvidosos e até com ligação no crime organizado russo, colocando em xeque mais uma vez sua legitimidade. Essas informações encontrei no jornal The Moscow Times pela jornalista Eva Hartog, durante o vôo de volta para o Brasil e enquanto pude ir escrevendo esse texto.


ONTEM E HOJE

Não se pode negar que é tudo grandioso na capital russa, foram investidos muito em segurança, estradas, transporte público... as estações de metro são consideradas uma das mais eficientes e com arquitetura peculiar, repleta de lustres luxuosos, estátuas e mármores.
Uma frase hipotética que nos foi citada aqui na Russia que define um pouco de como era o ponto de vista na época. Um americano veio visitar uma fábrica de veículos na URSS e depois o russo foi ao Estados Unidos conhecer a empresa naquele país:

Russo: Aquela é a NOSSA empresa, e esse é o MEU carro
Americano: Aquela é a MINHA empresa, e esses são NOSSOS carros.

Hoje a Rússia utiliza a segunda frase acima para mostrar seus empreendimentos e sua produção.






September 18, 2015

Porque preciso saber dos custos de produção?


Como diria Stephen Severe, que era um daqueles meninos que estudavam somente para fazer tudo, ordenhar. Sabia que nao era muito glamuroso, mas acordar cedo deixava ele longe de apuros.

De fato, depois que se formou não gostava de seu primeiro trabalho, mas foi  depois de 10 meses longe de casa que voltou para fazenda, quando percebeu que seu pai precisava de ajuda. Ambos foram capazes de dar a volta por cima de forma agradável e melhorar as operações da fazenda até que ambos percebessem que estavam tendo uma das maiores produtividades por cabeça do Estado.

Porém, quando calcularam os custos associados com os níveis de produção, se deram conta de que não teriam mais condicoes de produzir daquela forma. Se soubessem dos custos poderiam ter calculado as metas antes. Poderiam ter se dado o direito de voltar atrás se soubessem quanto teriam aumentado o lucro e ficado com mais dinheiro no bolso.

Em sua fazenda sempre houve altas produtividades e resultados. Todos os anos  avaliam as taxas de prenhez por ano e queriam que sempre fossem maiores. Você não iria preferir uma taxa de 97% ao invez de uma taxa de prenhez de 92%? Mas e caso o custo por vaca fosse de  somente R$50 para atingir esses 97%, será que valeria a pena?  Teria um custo adicional de R$1.000 por vaca prenha acima acima dos 92% para atingir 97%. Não muito atrativo no longo prazo.

Será que seria pior se o custo por vaca fosse R$10? Isso daria um custo adicional de R$200 por vaca prenha acima dos 92%. Porém isso parece melhor, dessa forma talvez se consiga tomar uma decisao mais financeiramente educada e com menor risco.

Com os custos de produção mais altos e a incerteza da cotação das commodities agrícolas, fica cada dia mais visível que o lucro do produtor rural esta cada vez mais vinculado ao custo de produção. Atualmente existem diversas opções de insumos, sendo que o mercado de produtos para agricultura é bem fragmentado de forma que o produtor rural pode criar estratégias de compra formando e criando Grupos para obter maior poder de barganha na compra de insumos e se não for o caso, negociar, negociar e negociar... Mas nunca deixar de investir em novas tecnologias para agricultura e seguir os princípios básicos de boas práticas agrícolas, utilizando sementes certificadas, boa adubação, rotação de culturas... e buscar toda e qualquer forma possível de conhecimento que possa agregar na operação da fazenda, gestão e relacionamento com as pessoas. 

Quando sabemos nossos custos, podemos olhar nossas metas de produtividade e decidir bem se elas fazem sentido para todas as operações de campo, garantindo maior certeza das decisoes. E as vezes, só as vezes, podemos tentar relacionar esses custos com nosso dia a dia, como se os custos fossem a justificativa para algumas atitudes que tomamos em nossas vidas e quando se sabe os porquês, sempre se tem mais certeza das escolhas.