May 13, 2021

Sistema Milho: perguntas e respostas


Qual a produção aguardada para a safra 2020/2021?

Produtividade esperada era de 12 ton/ha
Produtividade realizada 11,4 ton/ha


Estiagem e doenças decorrentes da praga da cigarrinha impactaram esta temporada?

Sim, mesmo com os cultivos irrigados, sentimos a estiagem por diminuir a abundância de água nas barragens. Um dos nossos maiores desafios é o uso consciente de água para irrigação e isso vem sendo mitigado com melhorias na infiltração da água na lavoura, quando se constrói um perfil de solo o mesmo funciona como uma esponja, armazenando e estocando a água por mais tempo no solo para as plantas.

Para manejo de doenças e pragas, nossa estratégia está sendo trabalhar com o aumento da imunidade das plantas e torná-las mais resistentes às intempéries, gerenciando a causa e não somente os sintomas. Porém o que dificulta esse processo é que a forma como as sementes desses híbridos são produzidas pois tornam todo o sistema de produção de grãos de milho com uma grande dependência de moléculas químicas.

E houve sim perdas pela incidência de cigarrinha em híbridos de milho suscetíveis a essa praga. A perda estimada foi de 10%.


Na comparação com os mais recentes ciclos anteriores, aumentou a área cultivada e a produção obtida?

Aumentou a área cultivada, porém a produção foi menor do que planejada. Um dos motivos que limitam o aumento de área de milho em nosso sistema agrícola é o fato destes grãos ocuparem muito volume no armazenamento, competindo pelo espaço com grãos de soja.


O ganho de produtividade está vinculado a diversas variáveis. Escolha da semente mais adequada, bom preparo do solo, semeadura na janela certa de plantio, uso equilibrado de defensivos para controle de pragas e doenças, capacitação dos profissionais para semeadura e colheita adequados. Quais melhorias realizou nestas etapas nos últimos anos, e que entende que foram importantes para alavancar o desempenho da lavoura?

Realmente o resultado positivo de qualquer sistema de produção agrícola é o conjunto de fatores. Mas sair da Zona de conforto, fazer melhor e transformar o design de nosso pensamento com tantas mudanças que estamos vivendo, respeitar a natureza, ser rentavel, buscar prosperidade e abundância do sistema agricola foram a base para incrementar a produção. Para melhorar precisamos mudar como estamos manejando e as vezes aquilo que mais precisamos encontrar para essa melhoria pode estar onde menos queremos olhar.
Depender menos de insumos externos e mesmo assim usando tecnologias de alta qualidade, extraídas e produzidas no nosso país. Uma das melhorias foi buscar um ponto de vista biológico e acreditar que a agricultura do Brasil pode ser uma das mais limpas e rentáveis do mundo, comprovando que os agricultores podem sim consolidar um novo modelo de agroeconegócio brasileiro.



Utilizam alguma ferramenta digital [sensores, softwares, telemetria de máquinas etc] no dia a dia?

Utilizamos gps, piloto automático, mapeamento de fotometria com drones, telemetria para controle de umidade de grãos armazenados, gestão das áreas com mapas de colheita, um software para gestão de custos de produção e indicadores econômicos e contabilidade. Estamos utilizando um equipamento digital que mede a massa microbiana do solo. A agricultura digital é a cereja do bolo, porém ainda temos muito trabalho pela frente para conseguir rentabilizar e utilizar de forma mais assertiva todas informações dessas ferramentas, visto o excesso de informações.


Algo que gostariam de destacar que vem sendo fundamental para promover maior rendimento da lavoura?

Um grande passo foi o investimento em sistemas de irrigação e o que vem sendo fundamental é que buscamos cada vez mais uma visão de que a fazenda é um organismo agrícola. Nosso alicerce está sendo construído por plantas de cobertura, pulverização de microorganismos, adubação orgânica e mineral. Durante nossa entre-safra procuramos utilizar rotação de culturas onde reservamos 40% da área para produção de grãos e o restante das áreas com plantas de coberturas consorciadas para fechar as janelas de outono e primavera, mantendo o solo sempre coberto. Finalmente percebemos que o solo tem vida e que é fundamental alimentá-la com diversidade de outras espécies de coberturas outonais e invernais. Gramíneas com alta relação de carbono e leguminosas, brássicas e poligonáceas com maior relação de nitrogênio, criando um meio de cultura equilibrado para o sistema solo. Outra estratégia essencial para se fazer nesse arranjo de plantas é pulverizar comunidades de microorganismos para ativar ainda mais essa interação solo/microorganismos/plantas. Tudo isso para preparar e “engordar” o solo antes do plantio das culturas comerciais. A adubação de sistemas em nosso manejo ainda esta em fase de aprimoramento, mas já estamos trabalhando com adubação orgânica sólida e líquida, condicionadores de solos e adubos silicatados.

A integração-lavoura pecuária antes da cultura do milho para altos rendimentos ainda é um desafio, mas vemos com bons olhos todo tipo de integração de sistemas.

A melhor e principal ferramenta para aumentar o rendimento é procurar escutar e entender a natureza dos sistemas agrícolas e sempre acreditar que tudo dará certo quando se busca o equilíbrio. O milho e a soja são como reis e rainhas em nosso tabuleiro agroecosistêmico e a competição é melhorar sempre os resultados financeiros, sociais e ambientais desse organismo agrícola.




May 3, 2021

MODELOS DE COOPERATIVAS AGRÍCOLAS NA CHINA.


(ressuscitando um texto de 2017)

Cada vez que tínhamos alguma visita ou dia de campo, durante o workshop, era uma incógnita. No cronograma das atividades apenas mencionava "dia de visita" e quando perguntávamos aos organizadores o que iríamos visitar respondiam: "atividades agrícolas". Todos participantes ficavam inquietos pois a maioria preferiam saber onde e o sobre o que exatamente seria a visita.

Logo da CHINA CO-OP e da
empresa local
Era uma mega cooperativa que atua em quase todos os segmentos da cadeia de produção agrícola, com o objetivo de produção da matéria prima até o comércio com o consumidor final. Contempla uma rede de 30 mil sub-unidades com mais de 245 mil produtores cooperados.

O símbolo ou logo principal da cooperativa são esses quadrados com um círculo dentro, e a imagem da garça na lagoa é a referência quanto ao nome daquela unidade que visitamos.

Essa empresa é um misto de cooperativa público privada. Com uma estrutura organizacional privada, mas que presta contas para os orgãos públicos e aceitam sugestões sobre tipos de manejos. Eles sabem os tipos de insumos que precisam, compram do mercado geral, de revendas e distribuidores locais, fazendo diversos orçamentos.

No escritório  da  cooperativa.
A política financeira é muito interessante. Com um total apoio do estado, os recursos de financiamentos para estas cooperativas são de um fundo sem retorno de capital e com juros zero. Ou seja, o governo fornece o dinheiro e a cooperativa não precisa pagar de volta.

O principal cabeça da empresa é um militar aposentado. E isso ocorre na maioria das grandes e mega grandes empresas na China, sempre existirá uma ligação direta com o governo. O histórico do principal responsável e donos das empresas importa muito na hora de criar e registrar essa empresa para então se conseguir os recursos de fundo sem retorno e juros zero.




Frota de transplantadeiras e automotrizes.
Visitamos uma dessas unidades, que trabalha com 230 produtores rurais dos quais foram persuadidos a fazerem parte desta empresa, e prestarem serviços para ela. Digo persuadido pois se um dos produtores têm sua área no meio de outros dois que aceitaram assinar o contrato, este que esta no meio, não têm muitas opções. É aceitar a proposta ou ir para cidade e deixar sua área para outro que queira. A área total que essa cooperativa atua é próximo à 1.300 hectares. A China Co-op é uma rede de cooperativas que possui diversas filiais. Totalmente mecanizada com pulverizadores, automotrizes, tratores,  semeadoras e iniciando trabalhos com big data, mapeando todas as áreas e unificando a gestão de todas as operações.
A China CO-OP é apenas uma das grandes redes de empresas desse tipo, existem outras cooperativas e com estrutura bem parecida.

Segue uma apresentação em PDF que mostra um pouco da estrutura de mercado da China CO-OP.

A proposta de arrendamento das áreas pela cooperativa vale a pena, pois os agricultores chineses ganham o valor à vista antes da safra e ainda podem ganhar uma bonificação caso a colheita seja além da expectativa. E o contrato é válido até 2 anos após cada renovação. Com isso podem lucrar desta forma até R$10.500,00/ha. Porém a contrapartida é que esses agricultores façam todas as operações e manejos de plantio, aplicação de insumos e colheitas, acatando todas as sugestões dos responsáveis técnicos da cooperativa, que conta com grupos de engenheiros agrônomos especializados em cada área do processo produtivo.

Lavoura com grande escala de produção, graças a nova
reforma agrária chinesa.
O tamanho médio das áreas na China são em torno de 10 mu's. Onde 15 mu's equivalem a 1 hectare. Ou seja, o tamanho médio das áreas são de +- 0,7 hectares.  Por esse motivo, o governo chinês criou um mega projeto que já esta em prática a mais de 10 anos. Onde uma empresa cooperativa, procura por produtores que tenham suas áreas ligadas ou vizinhas uma das outras e fazem um contrato com esses produtores para unificarem as áreas. Dessa forma conseguem mecanizar e trabalhar em maior escala. Além disso, é uma forma de conseguirem armazenar boa parte da produção de grãos, centralizando maiores volumes nessas empresas, das quais irão reportar para o governo chinês sobre os estoques. Tanto para arroz, milho e soja produzidos dentro da China.

Sistema de armazenagem e secagem de grãos. Com vigas de ferro e telas, com ótimo custo benefício.


Não tem como falar nesse assunto das cooperativas da China sem falar do tipo de reforma agrária que a China esta passando. O que esta acontecendo naquele país é uma enorme reforma agrária para aumentar a escala de produção.

Quem fala em reforma agrária no Brasil com a intenção de dividir áreas esta totalmente equivocado.  Sabemos do desafio que existe e a diferença de renda entre produtores rurais, sim. Atualmente a agricultura familiar representa uma enorme fatia da produção no Brasil, com muita diversificação, assim como a agricultura empresarial que é também fundamental não só pelo fornecimento de grãos mas também por fornecer um superávit com sobra de grãos dos quais podemos exportar e nutrir toda a cadeia do agronegócios e empresas que vivem neste ramo. Por isso que falo em deixar de lado as demagogias e idealismos das diferenças entre esses sistemas de produção. Querendo ou não as multinacionais empregam muitos trabalhadores e excelentes profissionais brasileiros. Mas não devemos deixar a reforma agrária de lado, mas uma reforma nos para melhores planos agrícolas, com melhores planejamentos nas legislações sobre insumos e impostos absurdos que pagamos pelos herbicidas, fungicidas, inseticidas e fertilizantes, químicos ou biológicos. Necessitamos de mais estado para reformular essas leis de forma que tenhamos menos estado no futuro! Para assim fortalecer ambos os setores agrícolas.

A cooperativa arrenda as áreas dum grupo de produtores.

Já comentei uma vez aqui sobre o desenvolvimento rural na china e esses novos programas que o governo vem incentivando para unir as áreas dos produtores e conseguir aumentar a escala de produção

O que temos que parar de fazer é criar uma ideologia tola de direita e esquerda ou agricultura familiar e empresarial. Isso só deixam as pessoas segregadas uma das outras e criam desavenças que não precisam existir. Os setores agrícolas devem ser unidos, e claro, com leis específicas para cada realidade. Agora, tornar disso uma ideologia política só faz com que argumentos se transformem em ódio.


Aqui um pouco sobre a CHINA CO-OP


Presidente da cooperativa, ex-militar.

Ao fundo, nota-se duas jarras das quais têm uma salamantra
em cada, presente de um amigo do gerente da cooperativa.

Uma das enormes salamantras




Silos: telas de ferro e vigas de metal.












Trator e automotriz.



Pulverizador com acoplamento para graneleiro à lanço traseiro.


Automotriz.

Trator muito parecido com o que
conhecemos no Brasil.

Ração para peixes em uma piscicultura.





Campanha para o não disperiçar alimentos,
"o Alimento só é feliz dentro do estômago"






Farelo de soja: base para ração animal








Soja para consumo humano, "non gmo".




                                    Video que fiz com alguns takes do beneficiamento de arroz.




Fonte: